Uma história de resistência.

 
CÁTEDRA HERTHA MEYER

O que será o amanhã?

A Cátedra Hertha Meyer integra o Programa de Cátedras "O que será o amanhã", organizado pelo Colégio Brasileiro de Altos Estudos [CBAE] e pelo Fórum de Ciência e Cultura em homenagem ao centenário da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Através de diferentes frentes e ações, a Cátedra Hertha Meyer visa transgredir a ideia de cátedra como assento de quem leciona, abrir portas para o diálogo sem hierarquia e iluminar questões sombrias que atravessam e transcendem a ciência. A partir do resgate da memória da vida e da obra de Hertha Meyer, nos debruçamos sobre a história e propomos reflexões sobre o passado e o presente em busca de um novo amanhã.

Historicamente as mulheres foram afastadas do círculo criativo e líder da produção científica e tecnológica. [...] Desde muito cedo as meninas ouvem que as áreas como física, química, biologia, matemática, engenharia e computação se desenvolveram calcados em valores masculinos tais como certeza, eficiência, controle e ordem. Outro fator marcante foi o acesso tardio das mulheres à leitura e escrita, ocorrido somente em meados do século XVIII, quando então elas tiveram acesso ao universo dito masculino. Esta trajetória, segundo Simone de Beauvoir escreveu em 1949, não foi lenta somente em decorrência da ditadura masculina, mas da constatação de que a mulher é escrava de sua própria situação, não tem passado, não tem história [...] e não produziu como protagonista, nenhuma civilização."

 

[CABRAL; BAZZO, 2005, pp. 4]

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HERTHA MEYER [1902 - 1990]

"Às vezes, a mulher aprende a servir de acordo com seu destino"

 

"Dienen lerne bei Zeiten das Weib nach seiner Bestimmung"
[Mote da escola Lette-Haus, em 1888]

Hertha Meyer nasceu na Alemanha, em maio de 1902, no seio de uma família judia não abastada. Após concluir o ensino básico, Hertha ingressou na escola Lette-Haus em Berlim [hoje Lette-Verein], conhecido liceu de cursos profissionalizantes exclusivo para mulheres, já que mulheres não tinham acesso à universidade.

Na década de 1930, com a ascensão do Nazismo e perseguição aos judeus alemães, Hertha migra para Itália. Em Turim, trabalhando no laboratório de Giuseppe Levi, conhece Rita Levi-Montalcini e juntas se dedicam intensamente ao cultivo de células neuronais. Porém, após a publicação do "Manifesto della razza" de Mussolini que, entre outras atrocidades, também estabelecia restrições e perseguições aos judeus, Hertha foi obrigada a deixar o país mediterrâneo. Embarca, então, para o Rio de Janeiro, motivada pela presença de parentes alemães que haviam migrado anteriormente.

No Rio, primeiro em Manguinhos e depois na UFRJ, a incansável Hertha Meyer nunca deixou de produzir. Mas, apesar dos esforços de Carlos Chagas Filho, a pesquisadora não pôde estabelecer contratos estáveis com a universidade federal, primeiro por ser judia e depois por ser alemã. Mesmo com todas as adversidades, Hertha desenvolveu métodos e publicou pesquisas sobre o cultivo de células e infecção por protozoários como o T. cruzi que são referências até hoje.

Os destinos de Hertha e Rita se cruzam novamente, quando a italiana vem ao Rio de Janeiro realizar experimentos que foram cruciais para o trabalho que lhe rendeu o prêmio Nobel de Medicina em 1986.

A trajetória de Hertha Meyer foi emblemática pois apesar de toda a perseguição que sofreu, de todas as oportunidades que lhe que foram negadas por ser mulher, judia e alemã, resistiu e produziu muito. Gerações de pesquisadores foram influenciadas por seu trabalho científico e, sobretudo, sua resiliência e paixão pela pesquisa. Sua influência foi reconhecida através de prêmios e homenagens, como o título de Doutor Honoris Causa da UFRJ e o nome dado ao laboratório onde trabalhou por quase 50 anos: Laboratório de Ultraestrutura Celular Hertha Meyer.

E assim, Hertha serviu à ciência e à UFRJ como era o seu destino. E nós somos muito gratos a ela.

VÍDEO 

Hertha Meyer sou eu

 
 

Organizadores

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